#2 mamãe, eu quero ser whimsigothic
sobre ter sido uma adolescente nos tenebrosos anos 2010
apague as luzes, acenda uma vela perfumada e dê play nessa música:
por muito tempo eu culpei os astros por me fazerem nascer em 1998. acreditava que devia ter vindo ao planeta terra em 1947, que nem a rita lee. não importava se as condições para as mulheres fossem ainda piores, pelo menos eu seria uma adolescente enlouquecendo em tempo real pelos beatles e rolling stones. na minha vida adulta eu poderia ter sido punk no cbgb ou ter discotecado no studio 54. faria as duas coisas acompanhadas da debbie harry e, pra mim, isso é vencer na vida.
mas hoje eu entendo que me equivoquei. eu devia ter nascido mesmo em 2005.
algo que eu não sabia nomear
durante boa parte da minha adolescência, de 2012 a 2017, fui uma grande entusiasta de bruxaria. adorava ouvir kate bush e fleetwood mac, comprar livros duvidosos sobre astrologia e acessórios em formato de lua, visitar diariamente o site personare e pesquisar feitiços em blogs para fins que não revelarei nem no meu leito de morte.
não era algo hiponga; era místico, esotérico, DARK. mas não chegava a ser gótico. nem grunge. era algo que eu não sabia nomear, mas que existiu em algum momento dos anos 90. só que foi justamente essa indefinição que me tornou uma garotinha perdida: eu não conseguia encontrar referências facilmente e muito menos uma ~galera~ pra chamar de minha na internet.
hoje tudo tem um nome e uma pasta no pinterest. cottagecore, old money, y2k, messy girl e qualquer outra coisa que a hailey bieber invente. mas naquela época não. o tumblr era badaladíssimo, é verdade, mas os estilos se restringiam ao soft grunge (legal porém grunge demais pra mim) e aquela breguice hipster. também considero a possibilidade de não ter usado as ferramentas de busca adequadamente por ser burrinha demais.
em 2013 eu só queria encontrar pessoas que:
eram obcecadas pela lua
adotariam um gatinho preto que nem o salém de “sabrina, a aprendiz de feiticeira”
compravam muitos cristais falsos achando que eram verdadeiros
queriam ser a stevie nicks quando crescessem
amavam investigar sobre ocultismo (astrologia e tarô principalmente)
ouviam smashing pumpkins e achavam a capa do “mellon collie and the infinite sadness” a coisa mais linda do mundo
eram doidas por roupas de veludo
queriam um par de dr. martens pra chamar de seu
queriam todas as roupas da phoebe nas primeiras temporadas de “friends”
adoravam a estética do filme “the craft” (1996)
o batom snob e a ascensão do fascismo
ainda bem que esse não é um texto jornalístico porque precisaria provar o que vou escrever agora, mas eu sinto que o mundo está dominado pela nostalgia. as roupas, as séries e os filmes parecem ser uma cópia reciclada de décadas passadas. a ideia de que antigamente tudo era melhor é um terreno fértil pra ascensão do fascismo, ou pior: pra volta do batom snob.
esse OBJETO ASQUEROSO é símbolo da pior fase que existiu na moda: os anos de 2009 a 2019. não acredita em mim? por favor, ESTUDE esse vídeo do canal moderngurlz e depois venha falar olhando nos meus olhos que você gosta mesmo de base matte, estampa de galáxia e colar de bigode. EU DUVIDO!

a década de 2010 mal morreu e nem deixaram o corpo esfriar pra ressuscitá-la. todo esse delírio coletivo é culpa do tiktok. eu não aguento mais ver gente usando o filtro 2014 com a música “like a g6” enquanto finge que é uma it girl no tumblr. todo mundo sabe que a única it girl possível daquela época era a alexa chung. ponto final.
e não, não existia uma shein pra tapar esse desastre fashion. era c&a e marisa na veia. atura ou surta.
mazzy star state of mind
eu fui obrigada a criar um tiktok pro meu tcc, mas ele me trouxe algo bom: whimsigothic. SIM, aquela estética peculiar que eu amava na adolescência ganhou um nome, uma página detalhada na wikipedia e possui uma LEGIÃO DE FÃS™. agora eu vivo recebendo recomendações de vídeos de meninas que parecem viver no set de “buffy, a caça vampiros”. gosto de acompanhar, mas também fico tristinha.
sinto tristeza porque já sou adulta com responsabilidades de adulta. jamais poderia deixar de comprar roupas-de-trabalhar pra gastar dinheiro com saia midi xadrez e coturno de 400 reais.1 ninguém me levaria a sério. e, além disso, hoje sou cética em relação a tudo. meus tempos místicos ficaram pra trás quando uma taróloga de youtube disse que meu crush me correspondia (mentira) e que ele me chamaria pra sair mais vezes (não aconteceu). na verdade é mais complexo que isso, mas fica pra outra hora.

agora PENSE no estrago que faria se tivesse nascido em 2005. eu apenas digitaria whimsigothic no meu smartphone™ e bum. milhões de pastas com inspirações de looks apareceriam no pinterest; trilhões de tutoriais de make no tiktok; quadrilhões de opções de roupas descoladíssimas (e baratas) na shein. tudo isso porque decidiram nomear uma coisa que já existia.
SE eu fosse uma gen-z nascida em 2005 estaria neste momento vivendo os anos finais da adolescência esbanjando whimsigothic com as minhas amigas whimsigothics. nós teríamos um clubinho secreto de bruxaria, choraríamos ao som de mazzy star porque tiramos nota vermelha em matemática e assistiríamos “charmed” toda semana. e teria sido muito legal. pelo menos mais legal que a minha adolescência de verdade, tenho certeza.
moral da história: nomeie coisas.
antes de ir embora, deixo aqui uma playlist depressiva do mazzy star pra você curtir a melancolia em grande estilo:
infelizmente sou irresponsável e deixo de comprar roupas-de-trabalhar pra gastar dinheiro com saia midi xadrez, mas não com um coturno de 400 reais e isso é só porque não tenho dinheiro.






Amiga, em 2024 eu fiz uma festa de aniversário com o tema whimsigothic, fiz todo mundo se vestir assim e descorei tudo com essa estética. Tirei mil fotos que teriam bombado no tumblr, curei a minha alma e prossegui a nunca mais me vestir assim
passar ANOS e ANOS tentando se identificar com algo pra de repente criarem essas coisas de "aesthetic" e "core" e você finalmente ter as respostas que procurou aos 12 anos