#40 a falta que faz um conteúdo teen para teens
é por isso que o fascismo está em ascensão
pra ler & ouvir:
durante os quase dois meses sabáticos que eu mesma me dei (e confesso que não merecia), comprei muitos presentes (que também não merecia), mas um deles mexeu demais comigo: a edição especial impressa da capricho.
pra quem não sabe, a revista queridinha das adolescentes brasileiras passou a ser totalmente digital há 10 ANOS – o que me assustou muito, pois 2015 aconteceu semana passada. não sei se foi a obsessão da geração z pelos anos 2000 (autocrítica) ou a nostalgia dos millennials que buscam no passado uma cura pra todas as frustrações da vida (autocrítica), fato é que voltaram atrás nessa decisão e agora teremos capricho impressa a cada seis meses. eu amei, meu bolso nem tanto. por que revistas são tão caras? alguém do mercado editorial online, por favor?
mas isso me fez pensar no quanto é importante crescer cercada por pessoas que aparentam saber tudo sobre a vida e que criem um ambiente confortável pra se falar sobre qualquer coisa. esse é o papel dos pais colunistas das finadas revistas teen. eu, por exemplo, sou a prova viva da necessidade delas. não fui uma adolescente capricho, tampouco atrevida ou todateen – é por isso que sou desse jeitinho que você já conhece. se eu sobrevivi a essa fase é pela misericórdia de deus que me fez maluca o suficiente pra confiar na minha intuição e pelas amigas leitoras que liam tudo-isso-aí-que-citei e me repassavam. me lembro com carinho do pânico quando descobrimos a existência de um negócio chamado menstruação. foi fascinante. até criamos um clube pra falar APENAS sobre isso.
agora falando seríssimo: eu acredito que minha missão de vida seja trabalhar para o público adolescente. AMO bancar a figura da mãe responsável, da mentora, da protetora, da mensageira, da guia, da jenna rink. queria muito poder dizer pra maria eduarda do primeiro b que não, o joão pedro do primeiro a não é o amor da vida dela, que ela precisa ler livros que não estão na lista do vestibular, que tudo bem se sentir confusa por ter que escolher uma profissão tão cedo, que ela pode pintar o cabelo de azul, que aquela amiga que fala mal de todo mundo também fala mal dela, que o joão pedro do primeiro a é um coitado, que ela pode furar a orelha na farmácia, que ela precisa ouvir jagged little pill da alanis morissette, que moda não é fútil, que um dia ela vai entender os motivos dos pais, que fichário é infinitamente melhor do que caderno, que aquele cara que a trata mal só porque ela não quis beijá-lo também é um coitado, que ela precisa pegar leve consigo mesma e rir mais.
dito tudo isso, eu sinto muito pelas crianças e adolescentes que crescem sendo educados pelo algoritmo fascista do tiktok e do instagram ou sei lá o que acessam hoje em dia. reddit? discord? dark web? simplesmente não existem mais tantos espaços feito especialmente pra eles. quem dá dicas amorosas pra maria eduarda do primeiro b? a supervulgar? medo.
agora todo mundo convive junto numa terra cada vez mais desprovida de leis. um simples vídeo inocente pode ter um conteúdo perturbador no meio. a propaganda de um aplicativo pode ser golpe. o próximo tiktok pode ter imagens gráficas pesadas. os comentários não têm moderação alguma. sei lá, me sinto meio alarmista nível programas policiais da record, mas acredito ter um fundo de verdade. tenho certeza de que esse cenário tem tudo ver com o crescimento de ideias extremistas entre os jovens™. na minha vida é assim, tudo na base da intuição. e eu nunca erro.
por isso, precisamos da volta triunfal de revistas teen. mtv brasil. turma da mônica em horário nobre. capricho, me contrata. eu sei exatamente o que a maria eduarda do primeiro b precisa fazer.
(vou PLAGIAR a minha querida amiga bia assad, do maravilhoso leitura mista que agora tem uma newsletter super legal, e encerrar meus textos com gifs descoladíssimos que encontrei por aí).






ain eu sei que parece que vou soar saudosista mas olha: acho que ser adolescente até ali os anos 2010, que vivi, foi um dos últimos suspiros de informação, moda e cultura "orgânicos"! eu realmente tbm sinto muitíssimo pela juventude que agora fica à mercê não só do racismo e golpes como vc fala, mas do tédio existencial - não é preciso mais pensar muito em nada, mas ao mesmo tempo é preciso saber de tudo, mas ao mesmo tempo não existem espaços seguros para NADA! tava refletindo tbm com minha irmã esses dias que o fim da malhação, por ex, ressalta ainda mais como a gente falhou com as juventudes. jogamos eles pro celular porque achamos que é 'é isso mesmo que eles gostam'e daí a indústria cultural não tentou mais nada pra além disso - imagino eu que tbm pra cortar custos. quem quer pagar de forma justa uma jornalista que trabalhe por ex apenas buscando e escrevendo de verdade sobre pautas relevantes pra juventude? digo nem só escrever, mas produzir conteúdo num geral. ninguém quer ter mais essa despesa financeira e operacional. enfim, tudo muito triste, fico pensando que jovens hoje não tem nada para se apegarem muito. :<
às vezes paro e agradeço por ter sido uma criança entre 2000 e 2010!